# 4
2 em 1 - Post Dedicado
2 em 1 - Post Dedicado
Não é por acaso que repito a palavra sorte. É isso que nós somos. Sortudas, abençoadas, especiais (um especial que não tem nada a ver com superioridade).
No início é o choque. A mistura. A confusão. É inevitável a imensa alegria. É inevitável, a acompanhá-la, o medo e a insegurança. Nestes casos há muitas vezes, e desnecessariamente, muito mais receios, muito mais dúvidas, muito mais cuidados, muito mais tudo. Ainda me lembro de como fiquei e recordo com satisfação as minhas interrogações entre o e agora o que eu faço e o devo ser a pessoa mais feliz deste momento. Foi assim e muito mais. Impossível de descrever fielmente. Depois tudo foi acontecendo, connosco a acalmar a cada semana, a ter, cada dia, um bocadinho mais de certeza de que tudo ia correr pelo melhor, a desvalorizar cada pequeno susto, nenhum receio se concretizaria, nenhuma das histórias horrendas que faziam estremecer estaria perto de se tornar realidade. Porque nesta altura o que teima em crescer como ervas daninhas são as histórias horrendas, os finais infelizes, o se fosse eu não queria, ia ter medo, é tão perigoso e o conheço um caso assim-assim e assim e olhe que foi uma tragédia. Crescem aos montes nos supermercados, nas padarias, nos consultórios e nos restaurantes, nos autocarros. Que uma barriga daquelas jamais passará despercebida. Ou então gente muito boquiaberta e profundamente incomodada com o facto serem dois quando devia ser só um, que pena, deixe lá, paciência, que horror, Deus me livre. Gente pequenininha. Gente minúscula que devia ter um sensor de disparates e sofrer um bocadinho por cada pérola destas. (Ai que má.)Muitas vezes eu até dizia que o meu dois em um não era um dois em um e era só um muito grande, tão grande que até parecia um dois em um. Ou então que era eu que estava gorda, uma chatice. As ervas daninhas faziam-me alergia e tive que me defender. Quando nasceram, foi diferente. Como tudo correu bem, sem grandes complicações as ervas daninhas limitavam-se agora ao trabalho que iam dar, uma coisa horrorosa e já tem um, olhe de certeza que vai ter uma depressão. Não tive. Não foi fácil, não. Não foi perfeito nem cor-de-rosa. Foi mágico e bonito e belo, umas vezes menos belo, menos bonito, menos mágico. Mas a verdade é que não há ninguém que esteja absolutamente preparado para dois de uma vez. Se muitas vezes a maternidade comum é viver 24h para um pequeno ser, esta é de certeza viver as 24h, mas para dois. Entre mamadas, mudas de fraldas, sestas desencontradas, chorinhos, berreiros, cólicas e outras maravilhas resta muito pouco tempo. Aliás, nenhum. A certa altura os dias são absolutamente em função dos dois pequenos, não há tempo para dormir, não há tempo para descansar, não há tempo para uns minutos sentada a comer em condições, não há tempo para mais nada. Isto não é saudável. Os filhos dependem da mãe. Se a mãe não se cuida, se a mãe não se sente bem, jamais os filhos poderão estar sossegados. Esta é uma realidade que não se deve desvalorizar. Mas tende, naturalmente, a ser. E por isso os primeiros meses podem ser complicados. Eles crescem. Cresce com eles uma cumplicidade enorme raramente comparável à de dois irmãos comuns. Esta é uma cumplicidade ainda mais especial, que às vezes assusta. Que às vezes faz dois ficarem muito felizes, dois ficarem muito tristes, dois ficarem muito inquietos, dois ficarem muito agitados. Estes dois sempre se conheceram juntos. Estes dois nunca existiram separados. E os pais hão-de se entusiasmar com a primeira festinha, com a primeira guerra, com a primeira birra pelo mesmo brinquedo (com as restantes não tanto), com o primeiro beijinho, e com o primeiro abraço. Eles crescem. Continuam a dar trabalho, continuam a fazer a mamã correr e desesperar mas a diferença é que nesta altura já os pais desenvolveram os seus esquemas de organização, já tudo está controlado, já as rotinas estão implementadas, enfim, a adaptação feita. Estas coisas não se podem ensinar. Nem decorar. Nem meter na cabeça. Vão ser adquiridas ao longo de tempo. Mas enumero abaixo uma pequena lista de uma dúzia de ideias que considero importantes e que talvez me tivessem dado jeito.
1. Antes: Esta gravidez não é um perigo iminente. É preciso desmistificar isto. É preciso procurar médicos e livros positivos. As coisas podem correr mal, como sempre. Mas todos sabemos que nada é perfeito e nada está livre de correr mal. Uma destas pode correr mal. Uma das outras também. É assim, pronto. E não vale a pena estar a pensar nisso a toda a hora. Prematuridades, internamentos, caixinhas mágicas (vulgo incubadoras) são coisas para depois (que podem até nunca ser). A mãe tem é que se concentrar em estar calma, em aproveitar o estado e confiar nos tais médicos positivos. E as mães e os pais vão sempre conseguir distinguir os filhos mesmo que para os outros eles sejam fotocópias.
2. Antes: Organizar tudo aquilo que seja possível e o mais cedo que se puder. Mesmo cedo. Não sei lá como foi com outras mas a minha barriga não era grande, era gigante. Ai de mim que pensasse em arrumar coisinhas no último mês. Esquecer a romântica ideia de andar com a barriguinha (ironia, pois com certeza) rua fora, nos últimos meses, a comprar o(s) último(s) bodie(s) tamanho não-sei-quantos que tem que ser verde(s) porque fica(m) melhor com aquele fato assim-assim.
3. Antes: Organizar ajuda previamente. Não, não conseguimos fazer tudo sozinhas. Também é romântica a ideia do agora somos uma família nova e queremos estar só nós a curtir estes bebezinhos. Ainda para mais se há filhos mais velhos. Ervas daninhas dispensam-se, visitas chatas também. Gente pronta a arrumar cozinhas, fazer camas, fazer comida, tratar dos bebés sem começar frases por “se fosse eu” ou “no teu lugar” ou “eu fazia assim”, SIM. Podem ser amigas, colegas, tias, avós, tios-avós, padrinhos, vizinhos, empregadas. Têm é que ajudar.
4. Antes: Começar a simplificar as tarefas de casa. Esquecer pormenorezinhos. Deixar os cozinhados muito complicados. Deixar as limpezas complexas. Relaxar, descansar. NORMALMENTE, OS MÉDICOS TÊM RAZÃO quando mandam as mães/pré-mães para casa. Há contracções que não se sentem e há bens-estar mascarados. Descansar, descansar, descansar. Meter-se no yoga, fazer meditação, ouvir música, sei lá. O stress deve ser precocemente demitido.
5. Antes: Planear tarefas, horários, descobrir soluções que poupem tempo e stress. Preparar o pai de que se adivinham tempos complicados e que ele terá mesmo que ajudar do tipo dar biberões, mudar fraldas, dar banhos, acordar de noite, lavar roupa com cocó e leite azedo, brincar com os filhos mais velhos, mais do que nunca. Um não é o mesmo que dois. Estabelecer limites para as pessoas que ajudarão de fora. Dizer mesmo que quero que venhas cá, fazer isto assim e às tantas horas podes ir embora que já não és precisa (pode ser um bocadinho mais delicado). Impor respeito. (É que a certa altura tinha seis e sete pessoas enfiadas em minha casa muitos prestáveis a querer fazer tudo. Um horror.)
6. Depois: Dormir sempre que possível. O sono é um dos causadores do stress e da insatisfação e descontrole. Fazer sestas quando os bebés estiverem a dormir e os mais velhos estiverem na escola (se houver mais velhos). Se os bebés se recusam a dormir sesta, é urgente fazer turnos com o pai e outros promovidos a ajudantes. Quando se está a descansar, está-se a descansar portanto telefones desligados, portas fechadas e audição selectiva (os choros dos bebés não entram!).
7. Depois: Comer muito bem. Nada de refeições saltadas. E então se os bebés estão a ser amamentados, é a saúde de três que é afectada. O stress e a ansiedade reduzem o apetite mas a mãe tem que fazer o esforço. Às vezes pode ser sugerido à mãe um complemento vitamínico. Estas refeições devem ser do mais simples que há, embora completas. Nada de cozinhados de revistas e livros. É importante que todos nutrientes estejam presentes. Não é importante que o prato tenha bom aspecto (salvo seja). O ideal é cozinhar(em-nos) grandes quantidades e congelar de modo a que uma refeição signifique descongelar/aquecer/pontofinal.
8. Depois: Os filhos mais velhos (se houver) sentem sempre a mudança com a chegada de um irmão. Mais com a chegada de dois. É preciso arranjar, seja lá onde for, tempo para os irmãos mais velhos que estão tão pocuo confortáveis como os pais com as novas rotinas. Deixar os bebés com essas queridas que são as avós e as tias e ir dar uma voltinha com filhos mais crescidos. Ir dar a voltinha é mesmo necessário porque é uma forma de lhes mostrar que afinal as coisas não mudaram assim tanto, que a mãe não foi foi raptada e continua lá, igualíssima, gosta imenso deles e tudo isso. Ler-lhes uma história enquanto se amamentam os bebés não tem o mesmo resultado.
9. Depois: Se os bebés estão a ser amamentados podem ser amamentados em simultâneo, um a seguir ou outro, ou um pelo pai (biberão), outro pela mãe que também não faz mal nenhum (desde que alternados). Nos primeiros tempos nunca consegui fazer com que mamassem ao mesmo tempo porque eles eram mínimos e tinha um medo terrível de que se engasgassem e eu não conseguisse socorrer. Depois passei a conseguir e só aguentei por ser prático. Mas pouco confortável. Por um lado é bom que mamem ao mesmo tempo (ou quase) porque depois há mais tempo livre e o dia não se resume a mamadas+fraldas+dormir. Por outro, juntar os dois pode ser caótico. Entretanto o leite materno pode ser congelado e dado no biberão por outra pessoas e a mãe pode dormir. Se for com leite artificial, o ideal é fazer uns quantos logo de uma vez.
10. Depois: Os bebés são pequeninos e não se importam nadinha de dormir na mesma cama durante os primeiros dias/semanas. É prático. E mais tarde, não se importam de comer do mesmo prato. (Foi uma brilhante ideia que tive depois de uma semana a stressar com colheres misturadas e pratos trocados.) E muitas vezes choram porque um começou e não porque tiveram uma crise de cólicas ao mesmo tempo. (Quero dizer, pode acontecer.) Estes bebés vão tendo uma capacidade enorme de dormir com barulho e ao fim de uns tempos já não acordam com o choro do outro. É bom adormecerem juntos porque juntos sentem-se seguros.
11. Depois: Em relação à casa, não vale a pena ser perfeccionista. Organizada, sim. Eu dou-me bem com as listas. Programar tudo o que tem que ser feito, estabelecer a ordem e, claro, dividir com o pai. Depois aquilo que interessa e que tem que ser realmente feito é feito. O resto é secundário. O espaço que é mais utilizado é aquele que interessa estar arrumado porque a desarrumação cria(-me) stress. Quanto menos divisões da casa se utilizam, melhor.
12. Sempre: Ter (no sentido de criar) gémeos não é um bicho-de-sete-cabeças mesmo que eles sejam mauzinhos. É possível sobreviver com (quase) a mesma sanidade mental. Para além de que com gémeos a eficácia e o sentido prático são coisas que melhoram a olhos vistos. É o chamado trabalho em série. Em breve aquilo que demorou imenso tempo a fazer, é agora feito de cor e sem pensar. É mesmo verdade quando se diz que é tudo duplicado. Mesmo tudo. O trabalho e a magia e o encanto e a alegria e os choros e as gargalhadas e o amor. E não saímos de casa despenteadas, nem temos a cara suja, nem temos uma camisola e umas calças que não combinam: um dois em um é motivo que sobra para ter uma rua em peso a olhar para nós (e sobre isto não digo mais nada).
Há-de haver dias em que não vai apetecer sair da cama pela décima quarta vez para pôr duas chuchas, que os choros irritam, que os pais não ajudam ou não podem, que sobra tudo para nós que vimos, com sorte, no décimo lugar da nossa lista de prioridades.
Mas às vezes, o mundo resume-se a dois (ou mais) sorrisos e tudo parece incrivelmente perfeito.
Meu, 23/09/2005
No início é o choque. A mistura. A confusão. É inevitável a imensa alegria. É inevitável, a acompanhá-la, o medo e a insegurança. Nestes casos há muitas vezes, e desnecessariamente, muito mais receios, muito mais dúvidas, muito mais cuidados, muito mais tudo. Ainda me lembro de como fiquei e recordo com satisfação as minhas interrogações entre o e agora o que eu faço e o devo ser a pessoa mais feliz deste momento. Foi assim e muito mais. Impossível de descrever fielmente. Depois tudo foi acontecendo, connosco a acalmar a cada semana, a ter, cada dia, um bocadinho mais de certeza de que tudo ia correr pelo melhor, a desvalorizar cada pequeno susto, nenhum receio se concretizaria, nenhuma das histórias horrendas que faziam estremecer estaria perto de se tornar realidade. Porque nesta altura o que teima em crescer como ervas daninhas são as histórias horrendas, os finais infelizes, o se fosse eu não queria, ia ter medo, é tão perigoso e o conheço um caso assim-assim e assim e olhe que foi uma tragédia. Crescem aos montes nos supermercados, nas padarias, nos consultórios e nos restaurantes, nos autocarros. Que uma barriga daquelas jamais passará despercebida. Ou então gente muito boquiaberta e profundamente incomodada com o facto serem dois quando devia ser só um, que pena, deixe lá, paciência, que horror, Deus me livre. Gente pequenininha. Gente minúscula que devia ter um sensor de disparates e sofrer um bocadinho por cada pérola destas. (Ai que má.)Muitas vezes eu até dizia que o meu dois em um não era um dois em um e era só um muito grande, tão grande que até parecia um dois em um. Ou então que era eu que estava gorda, uma chatice. As ervas daninhas faziam-me alergia e tive que me defender. Quando nasceram, foi diferente. Como tudo correu bem, sem grandes complicações as ervas daninhas limitavam-se agora ao trabalho que iam dar, uma coisa horrorosa e já tem um, olhe de certeza que vai ter uma depressão. Não tive. Não foi fácil, não. Não foi perfeito nem cor-de-rosa. Foi mágico e bonito e belo, umas vezes menos belo, menos bonito, menos mágico. Mas a verdade é que não há ninguém que esteja absolutamente preparado para dois de uma vez. Se muitas vezes a maternidade comum é viver 24h para um pequeno ser, esta é de certeza viver as 24h, mas para dois. Entre mamadas, mudas de fraldas, sestas desencontradas, chorinhos, berreiros, cólicas e outras maravilhas resta muito pouco tempo. Aliás, nenhum. A certa altura os dias são absolutamente em função dos dois pequenos, não há tempo para dormir, não há tempo para descansar, não há tempo para uns minutos sentada a comer em condições, não há tempo para mais nada. Isto não é saudável. Os filhos dependem da mãe. Se a mãe não se cuida, se a mãe não se sente bem, jamais os filhos poderão estar sossegados. Esta é uma realidade que não se deve desvalorizar. Mas tende, naturalmente, a ser. E por isso os primeiros meses podem ser complicados. Eles crescem. Cresce com eles uma cumplicidade enorme raramente comparável à de dois irmãos comuns. Esta é uma cumplicidade ainda mais especial, que às vezes assusta. Que às vezes faz dois ficarem muito felizes, dois ficarem muito tristes, dois ficarem muito inquietos, dois ficarem muito agitados. Estes dois sempre se conheceram juntos. Estes dois nunca existiram separados. E os pais hão-de se entusiasmar com a primeira festinha, com a primeira guerra, com a primeira birra pelo mesmo brinquedo (com as restantes não tanto), com o primeiro beijinho, e com o primeiro abraço. Eles crescem. Continuam a dar trabalho, continuam a fazer a mamã correr e desesperar mas a diferença é que nesta altura já os pais desenvolveram os seus esquemas de organização, já tudo está controlado, já as rotinas estão implementadas, enfim, a adaptação feita. Estas coisas não se podem ensinar. Nem decorar. Nem meter na cabeça. Vão ser adquiridas ao longo de tempo. Mas enumero abaixo uma pequena lista de uma dúzia de ideias que considero importantes e que talvez me tivessem dado jeito.
1. Antes: Esta gravidez não é um perigo iminente. É preciso desmistificar isto. É preciso procurar médicos e livros positivos. As coisas podem correr mal, como sempre. Mas todos sabemos que nada é perfeito e nada está livre de correr mal. Uma destas pode correr mal. Uma das outras também. É assim, pronto. E não vale a pena estar a pensar nisso a toda a hora. Prematuridades, internamentos, caixinhas mágicas (vulgo incubadoras) são coisas para depois (que podem até nunca ser). A mãe tem é que se concentrar em estar calma, em aproveitar o estado e confiar nos tais médicos positivos. E as mães e os pais vão sempre conseguir distinguir os filhos mesmo que para os outros eles sejam fotocópias.
2. Antes: Organizar tudo aquilo que seja possível e o mais cedo que se puder. Mesmo cedo. Não sei lá como foi com outras mas a minha barriga não era grande, era gigante. Ai de mim que pensasse em arrumar coisinhas no último mês. Esquecer a romântica ideia de andar com a barriguinha (ironia, pois com certeza) rua fora, nos últimos meses, a comprar o(s) último(s) bodie(s) tamanho não-sei-quantos que tem que ser verde(s) porque fica(m) melhor com aquele fato assim-assim.
3. Antes: Organizar ajuda previamente. Não, não conseguimos fazer tudo sozinhas. Também é romântica a ideia do agora somos uma família nova e queremos estar só nós a curtir estes bebezinhos. Ainda para mais se há filhos mais velhos. Ervas daninhas dispensam-se, visitas chatas também. Gente pronta a arrumar cozinhas, fazer camas, fazer comida, tratar dos bebés sem começar frases por “se fosse eu” ou “no teu lugar” ou “eu fazia assim”, SIM. Podem ser amigas, colegas, tias, avós, tios-avós, padrinhos, vizinhos, empregadas. Têm é que ajudar.
4. Antes: Começar a simplificar as tarefas de casa. Esquecer pormenorezinhos. Deixar os cozinhados muito complicados. Deixar as limpezas complexas. Relaxar, descansar. NORMALMENTE, OS MÉDICOS TÊM RAZÃO quando mandam as mães/pré-mães para casa. Há contracções que não se sentem e há bens-estar mascarados. Descansar, descansar, descansar. Meter-se no yoga, fazer meditação, ouvir música, sei lá. O stress deve ser precocemente demitido.
5. Antes: Planear tarefas, horários, descobrir soluções que poupem tempo e stress. Preparar o pai de que se adivinham tempos complicados e que ele terá mesmo que ajudar do tipo dar biberões, mudar fraldas, dar banhos, acordar de noite, lavar roupa com cocó e leite azedo, brincar com os filhos mais velhos, mais do que nunca. Um não é o mesmo que dois. Estabelecer limites para as pessoas que ajudarão de fora. Dizer mesmo que quero que venhas cá, fazer isto assim e às tantas horas podes ir embora que já não és precisa (pode ser um bocadinho mais delicado). Impor respeito. (É que a certa altura tinha seis e sete pessoas enfiadas em minha casa muitos prestáveis a querer fazer tudo. Um horror.)
6. Depois: Dormir sempre que possível. O sono é um dos causadores do stress e da insatisfação e descontrole. Fazer sestas quando os bebés estiverem a dormir e os mais velhos estiverem na escola (se houver mais velhos). Se os bebés se recusam a dormir sesta, é urgente fazer turnos com o pai e outros promovidos a ajudantes. Quando se está a descansar, está-se a descansar portanto telefones desligados, portas fechadas e audição selectiva (os choros dos bebés não entram!).
7. Depois: Comer muito bem. Nada de refeições saltadas. E então se os bebés estão a ser amamentados, é a saúde de três que é afectada. O stress e a ansiedade reduzem o apetite mas a mãe tem que fazer o esforço. Às vezes pode ser sugerido à mãe um complemento vitamínico. Estas refeições devem ser do mais simples que há, embora completas. Nada de cozinhados de revistas e livros. É importante que todos nutrientes estejam presentes. Não é importante que o prato tenha bom aspecto (salvo seja). O ideal é cozinhar(em-nos) grandes quantidades e congelar de modo a que uma refeição signifique descongelar/aquecer/pontofinal.
8. Depois: Os filhos mais velhos (se houver) sentem sempre a mudança com a chegada de um irmão. Mais com a chegada de dois. É preciso arranjar, seja lá onde for, tempo para os irmãos mais velhos que estão tão pocuo confortáveis como os pais com as novas rotinas. Deixar os bebés com essas queridas que são as avós e as tias e ir dar uma voltinha com filhos mais crescidos. Ir dar a voltinha é mesmo necessário porque é uma forma de lhes mostrar que afinal as coisas não mudaram assim tanto, que a mãe não foi foi raptada e continua lá, igualíssima, gosta imenso deles e tudo isso. Ler-lhes uma história enquanto se amamentam os bebés não tem o mesmo resultado.
9. Depois: Se os bebés estão a ser amamentados podem ser amamentados em simultâneo, um a seguir ou outro, ou um pelo pai (biberão), outro pela mãe que também não faz mal nenhum (desde que alternados). Nos primeiros tempos nunca consegui fazer com que mamassem ao mesmo tempo porque eles eram mínimos e tinha um medo terrível de que se engasgassem e eu não conseguisse socorrer. Depois passei a conseguir e só aguentei por ser prático. Mas pouco confortável. Por um lado é bom que mamem ao mesmo tempo (ou quase) porque depois há mais tempo livre e o dia não se resume a mamadas+fraldas+dormir. Por outro, juntar os dois pode ser caótico. Entretanto o leite materno pode ser congelado e dado no biberão por outra pessoas e a mãe pode dormir. Se for com leite artificial, o ideal é fazer uns quantos logo de uma vez.
10. Depois: Os bebés são pequeninos e não se importam nadinha de dormir na mesma cama durante os primeiros dias/semanas. É prático. E mais tarde, não se importam de comer do mesmo prato. (Foi uma brilhante ideia que tive depois de uma semana a stressar com colheres misturadas e pratos trocados.) E muitas vezes choram porque um começou e não porque tiveram uma crise de cólicas ao mesmo tempo. (Quero dizer, pode acontecer.) Estes bebés vão tendo uma capacidade enorme de dormir com barulho e ao fim de uns tempos já não acordam com o choro do outro. É bom adormecerem juntos porque juntos sentem-se seguros.
11. Depois: Em relação à casa, não vale a pena ser perfeccionista. Organizada, sim. Eu dou-me bem com as listas. Programar tudo o que tem que ser feito, estabelecer a ordem e, claro, dividir com o pai. Depois aquilo que interessa e que tem que ser realmente feito é feito. O resto é secundário. O espaço que é mais utilizado é aquele que interessa estar arrumado porque a desarrumação cria(-me) stress. Quanto menos divisões da casa se utilizam, melhor.
12. Sempre: Ter (no sentido de criar) gémeos não é um bicho-de-sete-cabeças mesmo que eles sejam mauzinhos. É possível sobreviver com (quase) a mesma sanidade mental. Para além de que com gémeos a eficácia e o sentido prático são coisas que melhoram a olhos vistos. É o chamado trabalho em série. Em breve aquilo que demorou imenso tempo a fazer, é agora feito de cor e sem pensar. É mesmo verdade quando se diz que é tudo duplicado. Mesmo tudo. O trabalho e a magia e o encanto e a alegria e os choros e as gargalhadas e o amor. E não saímos de casa despenteadas, nem temos a cara suja, nem temos uma camisola e umas calças que não combinam: um dois em um é motivo que sobra para ter uma rua em peso a olhar para nós (e sobre isto não digo mais nada).
Há-de haver dias em que não vai apetecer sair da cama pela décima quarta vez para pôr duas chuchas, que os choros irritam, que os pais não ajudam ou não podem, que sobra tudo para nós que vimos, com sorte, no décimo lugar da nossa lista de prioridades.
Mas às vezes, o mundo resume-se a dois (ou mais) sorrisos e tudo parece incrivelmente perfeito.
Meu, 23/09/2005
Linda, adorei a tua descrição!!
Já dei ao marido a ler e até lhe li alguns pontos em voz alta enquanto estava aqui a ver o post.
É como te disse, faço um copy e paste para imprimir para a posteridade!
Adoro os teus conselhos e vou segui-los religiosamente. Acho até que deverias escrever um livro para publicar, a sério, para ajudares as mamãs de gémeos. É que não há nada no mercado que nos ajude! Até parece que ter gémeos é igual a um filho só!!
Adorei, amei mesmo! Obrigada por tudo!
Beijinhos,
Posted by
Fusca |
28/1/06 11:18 a.m.